Os desafios da medicina na prática: o processo judicial
- Dra. Paulla Bittencourt

- há 12 horas
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Saiba o que está sendo analisado em um processo judicial e na temida pericia.
Fator 1: A Dinâmica da Relação Médico-Paciente e a Comunicação Efetiva
A relação médico-paciente é um vínculo de confiança que se estabelece, e a comunicação desempenha um papel crucial nessa interação.
A perícia médica avalia se houve uma comunicação adequada, transparente e empática por parte do médico, abrangendo a clareza das informações fornecidas ao paciente sobre seu estado de saúde, as opções de tratamento, os riscos e benefícios associados, bem como o prognóstico.
O registro detalhado dessas informações no prontuário é essencial, especialmente no que tange ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), documento que formaliza a aquiescência do paciente a determinado procedimento após ter compreendido todas as nuances.
A ausência de uma comunicação efetiva ou a falha em documentá-la pode gerar lacunas de informação que, em um contexto judicial, podem ser interpretadas como omissão ou descaso, impactando negativamente a percepção da qualidade do atendimento e a credibilidade do profissional.
Uma relação pautada na clareza e no respeito mútuo fortalece a defesa, demonstrando o compromisso do médico com a autonomia e o bem-estar do paciente.
Fator 2: A Observação Rigorosa dos Fatos Clínicos e Sua Interpretação
Os fatos clínicos, que incluem os sinais observados, as queixas expressas pelo paciente, os sintomas relatados, o tempo de evolução do quadro e a gravidade da condição, são elementos fundamentais para a reconstrução do cenário clínico.
O perito analisa a acurácia da anamnese realizada, a profundidade do exame físico e a interpretação desses dados pelo médico.
A capacidade de identificar corretamente os sinais e sintomas, de correlacioná-los e de elaborar um raciocínio diagnóstico coerente é um dos pilares da boa prática médica. Qualquer inconsistência entre os fatos clínicos registrados e as condutas adotadas, ou a omissão de dados relevantes, pode ser objeto de questionamento na análise pericial.
É a partir da análise detalhada e crítica desses fatos que o perito consegue compreender a lógica que guiou as decisões do médico e se elas eram justificáveis diante do quadro apresentado pelo paciente.
Fator 3: O Contexto Estrutural e as Limitações Operacionais do Ambiente Hospitalar
Nenhuma conduta médica ocorre no vácuo; ela está sempre inserida em um contexto operacional específico, que pode influenciar diretamente o desfecho do caso.
A perícia, portanto, deve considerar a estrutura disponível no hospital ou na clínica onde o atendimento foi prestado.
Isso inclui a disponibilidade de exames diagnósticos e terapêuticos, o suporte oferecido pela equipe multidisciplinar (enfermagem, fisioterapia, técnicos, etc.), a presença de recursos materiais e tecnológicos adequados, o tempo de atendimento disponível, a sobrecarga assistencial e quaisquer interferências externas, como as impostas por operadoras de planos de saúde (negativas de cobertura, atrasos na liberação de procedimentos, limitação de materiais).
As condições de trabalho, a adequação da equipe e a disponibilidade de insumos são fatores que impactam a capacidade do médico de oferecer o melhor atendimento. Quando falhas estruturais ou sistêmicas contribuem para um resultado adverso, a responsabilidade não pode ser exclusivamente imputada ao profissional, mas deve ser compartilhada ou até mesmo recair sobre a instituição.
A perícia tem o papel de discernir a origem da falha, distinguindo a conduta individual do médico das deficiências do sistema.
Fator 4: A Determinação do Dano e Sua Origem Multifatorial
Um dos aspectos mais delicados da perícia é a determinação do dano e a identificação de sua causa.
O perito precisa distinguir se o dano alegado decorre da evolução natural da doença que acometia o paciente, de uma conduta médica negligente, imperita ou imprudente, de uma falha sistêmica da instituição de saúde, ou de múltiplos fatores que atuaram concomitantemente.
Muitos resultados desfavoráveis são inerentes à própria natureza da patologia ou a complicações conhecidas e inevitáveis da medicina, e não necessariamente de um erro médico.
A análise deve ser criteriosa para evitar a confusão entre complicação e erro, compreendendo que a medicina, mesmo com todos os avanços, não é uma ciência exata e não pode garantir resultados.
A perícia busca decompor a causalidade, atribuindo a cada fator a devida proporção em relação ao resultado final.
Fator 5: O Nexo de Causalidade: A Ligação Inquebrantável entre Ação e Resultado
O nexo de causalidade é o elo fundamental que conecta a conduta médica ao dano sofrido pelo paciente. Sem a comprovação desse nexo, não há que se falar em responsabilidade.
A perícia é o instrumento hábil para estabelecer se a conduta médica realmente contribuiu de forma decisiva para o resultado adverso ou se este seria inevitável, independentemente da atuação do profissional.
A teoria da causa adequada é frequentemente aplicada, buscando verificar se a conduta do médico foi a causa eficiente e determinante para a ocorrência do dano.
A análise aprofundada dos eventos, a linha do tempo e a avaliação das probabilidades são essenciais para que o perito possa concluir, com base científica, sobre a existência ou não dessa ligação direta entre a ação ou omissão do médico e o prejuízo experimentado pelo paciente.
A demonstração de que o dano ocorreria de qualquer forma, em virtude da gravidade da doença ou de fatores externos, é um argumento poderoso na defesa do profissional.
Fator 6: As Particularidades do Contexto Médico: Emergências e Limitações
A prática médica é frequentemente exercida sob condições de extrema pressão, como em situações de emergência e urgência, onde as decisões precisam ser tomadas rapidamente, com recursos muitas vezes limitados e em ambientes de sobrecarga assistencial.
A perícia deve levar em consideração essas particularidades do contexto médico, reconhecendo que a atuação profissional em tais cenários pode apresentar limitações que não configuram erro.
A falta de tempo para aprofundar a investigação diagnóstica, a ausência de especialistas ou equipamentos específicos em um dado momento, ou as condições adversas do ambiente (como uma sala de emergência superlotada) são fatores que devem ser ponderados na avaliação da conduta.
As peculiaridades de cada caso, as condições específicas do paciente e as restrições inerentes ao atendimento prestado são elementos que contextualizam a atuação do médico e permitem uma análise mais justa e equitativa.
Mas como se resguardar?
Estratégias para Fortalecer a Defesa em Casos de Suposto Erro Médico:
A Construção Probatória Preventiva e Ativa
A defesa do médico em um processo que envolve a alegação de erro não se inicia no momento da citação ou da nomeação do perito.
Pelo contrário, ela é uma construção contínua, que se solidifica muito antes, através da diligência na documentação e da organização de informações que possam comprovar a regularidade da conduta, contextualizar o caso e evidenciar as limitações institucionais ou sistêmicas.
A atuação estratégica do advogado especializado em direito médico é fundamental para orientar o profissional da saúde nessa jornada.
A pericia não é mera formalidade processual, configurando-se como o coração da defesa médica em todos os processos que envolvem a alegação de erro profissional.
Em meio à emoção dos relatos, às expectativas das partes e à controvérsia dos fatos, o que prevalece no ambiente judicial é a evidência técnica, a qual é meticulosamente construída e apresentada por meio da prova pericial.
Quando o médico mantém uma documentação adequada e completa de sua prática, quando compreende seus direitos e deveres profissionais, quando se cerca de provas consistentes que corroboram sua atuação diligente, e, crucialmente, quando está acompanhado e orientado por um escritório especializado em direito médico e hospitalar, ele adquire a capacidade de transformar a perícia de um fator de risco em um poderoso instrumento de proteção.
A defesa médica efetiva é uma confluência de informação, técnica jurídica aprimorada, estratégia processual bem delineada e um apoio especializado constante.
Enfrentar uma ação judicial por suposto erro médico é, sem dúvida, uma das experiências mais desafiadoras e estressantes na carreira de qualquer profissional de saúde.
Contudo, é fundamental que o médico compreenda que não precisa enfrentar essa batalha sozinho.
A busca por informações qualificadas, a adoção de uma postura preventiva na documentação de sua prática e o apoio de uma equipe jurídica com expertise na área são os primeiros passos para fortalecer sua posição e proteger sua trajetória profissional contra acusações infundadas ou injustas.
A defesa médica começa com a conscientização de que a perícia é o seu alicerce e a estratégia para lidar com ela é a sua maior aliada.



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